As experiências de mulheres que estiveram na linha de frente da resposta às enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul são o tema de Sobre Vivências, publicação lançada pela Themis – Gênero, Justiça e Direitos Humanos no dia 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra e Caribenha. O evento ocorreu no Multipalco Eva Sohper do Theatro São Pedro, durante a programação da Semana de Ação Climática de Porto Alegre.
A publicação apresentou histórias e experiências de lideranças comunitárias, ativistas, Promotoras Legais Populares (PLPs) e outras mulheres que desempenharam um papel central nas ações de solidariedade e apoio às populações atingidas. A partir dessas trajetórias, o encontro abriu espaço para discutir justiça climática, participação social e a importância de construir respostas mais preparadas e inclusivas diante da intensificação dos eventos extremos.
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A atividade fez parte da programação da Semana de Ação Climática de Porto Alegre, que promoveu o encontro entre organizações da sociedade civil, universidades, movimentos sociais, empresas e representantes do poder público. Ao longo da semana, diferentes iniciativas abordaram os desafios impostos pela crise climática e a construção coletiva de cidades mais resilientes.
Construído a partir da escuta e do registro das vivências de mulheres, o relatório destacou a atuação das redes comunitárias durante a emergência. Em diferentes regiões, foram elas que mobilizaram recursos, organizaram ações de apoio, garantiram a distribuição de alimentos, acolheram pessoas atingidas e contribuíram para a reconstrução dos territórios.
Ao reunir essas experiências, Sobre Vivências também chamou atenção para as desigualdades sociais e de gênero agravadas pelas enchentes. A publicação apontou a necessidade de que as políticas de prevenção, adaptação e resposta à crise climática considerem as diferentes formas como os desastres afetam mulheres e comunidades vulnerabilizadas.
“As enchentes escancararam desigualdades, mas também revelaram quem esteve na linha de frente garantindo comida, acolhimento, informação e cuidado. Em muitos territórios, foram as mulheres que organizaram as respostas quando o Estado ainda não conseguia chegar. Este relatório é um registro dessas experiências e, sobretudo, um convite para que elas sejam reconhecidas como protagonistas das decisões sobre adaptação, reconstrução e enfrentamento da crise climática”, afirmou Jéssica Miranda Pinheiro, diretora-executiva da Themis.
Com inspiração na reflexão de Paulo Freire sobre a denúncia e o anúncio, a programação foi organizada em dois momentos: O primeiro painel abordou o processo de elaboração do relatório e reuniu algumas das mulheres cujas experiências deram origem à publicação.
A conversa foi mediada por Jéssica Pinheiro e contou com a participação de Maria da Glória Koop, responsável pelas entrevistas e pela elaboração do relatório; Ceniriani Vargas, a Ni do Movimento, liderança das cozinhas solidárias que produziram e distribuíram toneladas de alimentos durante as enchentes; e Tânia Mara, Promotora Legal Popular (PLP) e liderança da Zona Norte de Porto Alegre, região que acolheu o maior abrigo da cidade durante a emergência.
Na etapa final, o debate voltou-se para os desafios e as possibilidades de construção de respostas futuras. Mediado por Jéssica Pinheiro, o painel reuniu Luisa Horn Silveira, integrante da Clínica Feminista Antirracista Interseccional (CliFAI) da UFRGS; Sandra Ferreira, liderança comunitária e diretora escolar que atuou nos processos de reconstrução após as enchentes; e Fabiane Lara dos Santos, Promotora Legal Popular (PLP) e atual vice-presidenta do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher.
Com base em suas vivências e atuações nos territórios, as participantes compartilharam reflexões sobre o fortalecimento das redes comunitárias, a ampliação da participação social e a construção de estratégias capazes de garantir respostas mais justas e efetivas diante de novas emergências climáticas.
A participação da Themis na Semana de Ação Climática de Porto Alegre reafirmou que o enfrentamento da crise climática está diretamente relacionado à garantia de direitos, à redução das desigualdades e à promoção da justiça social. Ao registrar e compartilhar as experiências de mulheres que atuaram durante as enchentes, Sobre Vivências contribuiu para preservar essa memória coletiva e valorizar conhecimentos que podem orientar políticas públicas e processos de reconstrução mais democráticos, inclusivos e comprometidos com a justiça climática.