Cinedebate reúne trabalhadoras domésticas de todo o país para debater conquistas e desafios da luta sindical

Na noite da última terça-feira (29), a Themis promoveu o cinedebate “Conquistas e Desafios da Luta Sindical das Trabalhadoras Domésticas”, reunindo cerca de 60 trabalhadoras domésticas de diferentes regiões do Brasil em um encontro virtual marcado por troca de experiências, reflexões políticas e fortalecimento coletivo.

A atividade, realizada em alusão ao Dia das Trabalhadoras Domésticas (27 de abril), teve início com a exibição do documentário “Domésticas” (2016), uma realização da Casa de Cinema de Porto Alegre co apoio da Themis, ONU Mulheres, Elas Fundo de Igualdade Social, Fenatrad e MPT. Depois, foi realizado um debate que se estendeu por duas horas. O encontro destacou tanto os avanços conquistados pela categoria quanto os desafios persistentes na luta por direitos e valorização profissional.

Ao longo do diálogo, as participantes compartilharam vivências que evidenciam a complexidade e a historicidade da profissão, ainda marcada por desigualdades estruturais. A coordenadora-geral da Fenatrad, Cleide Pinto, chamou atenção para aspectos simbólicos que atravessam as relações de trabalho: “Essa história de ser ‘quase da família’ mexe muito com a gente. Dá uma revolta grande. A gente não quer ser da família de ninguém, a gente tem a nossa família”, afirmou. Ela também reforçou a necessidade de garantia de condições dignas: “A gente tem de lutar para todo mundo ter a sua função com salário digno”.

As falas evidenciaram que, apesar de conquistas importantes nos últimos anos, ainda há um longo caminho a percorrer. “Avançamos muito, mas temos muito a correr atrás ainda”, destacou Marinalva Silva, ao ressaltar o orgulho de pertencer à categoria. Já Lindy Luz trouxe à tona as barreiras históricas de acesso à educação, especialmente em contextos rurais, apontando a necessidade de políticas públicas que interrompam ciclos de vulnerabilidade.

O debate também contou com a participação do diretor do filme, o cineasta Felipe Diniz, e abordou a importância da memória e da produção de narrativas próprias. Para Milca Martins Evangelista, o documentário “é a nossa história sendo contada”. Ela sugeriu que obras como “Domésticas”sejam levados a escolas e sindicatos para ampliar o debate político. Na mesma linha, Maria Regina Teodoro destacou a permanência de estruturas de exploração: “A escravidão não acontece mais dentro da senzala, e sim dentro dos condomínios”.

A dimensão coletiva da luta foi reforçada por diversas participantes, entre elas Ernestina Pereira, presidente do Sindicato das Trabalhadoras Domésticas de Pelotas, que ressaltou a necessidade de inserção da categoria nas mobilizações sociais mais amplas.

Encerrando o encontro, Alejandra Gavilanes, Coordenadora da Área de Trabalho Doméstico Remunerado da Themis, reafirmou o compromisso da organização com a causa e reconheceu a potência das falas compartilhadas: “Não tem nada mais potente do que a luta de vocês”.

Com mais de 8 milhões de trabalhadoras domésticas no Brasil, em sua maioria mulheres negras, a categoria segue sendo uma das maiores forças de trabalho do país e, ao mesmo tempo, uma das mais historicamente desvalorizadas. O cinedebate evidenciou que a organização coletiva e a construção de espaços de escuta e visibilidade continuam sendo ferramentas fundamentais na busca por direitos e reconhecimento.