Entrevista: Maria Sylvia Aparecida de Oliveira, coordenadora executiva da área Gênero, Raça e Equidade

Coordenadora executiva responsável pela área de Gênero, Raça e Equidade, com foco em transformar estruturas desiguais para mulheres e meninas negras e influenciar em políticas públicas, Marya Sylvia Aparecida Almeida participou da mesa “Conservadorismos e políticas de Proteção às Mulheres”realizada durante o Seminário 20 Anos da Lei Maria da Penha, na UFRGS. Confira a entrevista à Themis:

Quem são as pessoas mais afetadas pelo avanço do conservadorismo e quais os desafios neste cenário?

Maria Sylvia Aparecida de Oliveira – Evidentemente, as pessoas mais afetadas desse avanço do conservadorismo, da extrema-direita, do fundamentalismo religioso, é a população negra, em especial as mulheres negras. E o nosso desafio é um desafio que a gente enfrenta e vê desde que foi abolida a escravidão nesse país, sem nenhuma política de inclusão da população negra. Desde esse período, nós estamos sendo desafiados, negros e negras, a preservar as nossas vidas.

Qual a contribuição das mulheres negras neste cenário?
Maria Sylvia Aparecida de Oliveira – Eu acho que o movimento de mulheres negras têm dado uma contribuição bastante importante e relevante nesse processo. Todas as conquistas, todos os avanços que nós tivemos até aqui, a gente tem que acreditar para a população negra de uma forma geral e para o movimento de mulheres negras de uma forma especial. E a gente tem demonstrado a nossa força e a nossa forma de luta. Um dos exemplos é a Marcha das Mulheres Negras de 2015, e desde lá os estados e municípios fazem a sua marcha todo 25 de julho, que é o mês das Mulheres Afro-Latino-Americanas e Caribenhas, e a última marcha que nós fizemos em Brasília, em 2025, pedindo reparação e bem viver. Então, eu acredito que o desafio agora é a gente manter essa luta para continuarmos vivas. Eu acho que é um pouco isso.

Na mesa, você mencionou uma frase de Sueli Carneiro para contar como as políticas públicas não atendem as mulheres negras.
Maria Sylvia Aparecida de Oliveira – É uma frase creditada a Sueli Carneiro, que entre a esquerda e a direita, continuamos sendo pretas. Porque, veja, desde 2006, a Lei Maria da Penha está aí, e como eu disse na mesa, em 2015 nós tivemos estudos da Flaxo, a partir do pesquisador Júlio Jacobo, informando que o feminicídio e o homicídio de mulheres negras tinha aumentado 54%, enquanto das mulheres brancas tinha diminuído 9,8%, salvo engano, porque eu não tenho a pesquisa na mão. Então, para nós, as políticas públicas não chegam. E nós, mulheres negras, continuamos morrendo. É só pegar os dados de 2015 até hoje, 2026, e todas as pesquisas, seja qual for a metodologia, vai informar que as mulheres negras continuam sendo as maiores vítimas de feminicídio e de homicídio no país. Então, é um pouco isso. Para nós, por conta da temática racial e no contexto da extrema-direita, dessa disputa com os temas de direitos humanos, a situação para nós se agrava, os dados, as estatísticas não melhoram para nós.