ONG feminista há 20 anos na defesa dos direitos das mulheres

8 de março: Não nos levem flores, vamos parar!

Via: 8MBrasil

 

Há alguns anos ministrei uma disciplina eletiva que tratava de gênero como elemento transversal das políticas públicas. Um dos textos escolhidos, e provavelmente o mais denso dentre eles, foi “Gender, the public, and the private”, de Susan Okin, publicado originalmente em 1991[i]. O texto procura realocar as fronteiras entre o público e o privado, destacando o espaço doméstico como a fronteira para o mundo público. Posteriormente, tal realocação iria permitir a Okin criticar as teorias da justiça por desconsiderarem as desigualdades existentes no espaço doméstico, tanto na divisão sexual do trabalho quando nas escolhas e decisões tomadas no âmbito das famílias.

Com o intuito de preparar os alunos para receber a posição teórica de Okin, comecei perguntando aos estudantes, que chegavam aos poucos, atrasados, o que eles haviam feito de manhã, antes de chegarem ao prédio em que estávamos tendo aula. A pergunta, inicialmente, não pareceu fazer sentido. Algum estudante perguntou: “onde você quer chegar?”. Respondi: “apenas queria saber o que vocês fizeram hoje de manhã. Quando estamos em um curso de línguas estrangeiras, não temos de narrar os atos que fizemos: acordamos, escovamos os dentes etc.? Então, gostaria que alguém – quem quiser – de vocês narrasse o que fez hoje”. Alguns poucos e poucas começaram a dizer: levantei, tomei café, fiquei um pouco de pijama…alguns acompanhados de família, outros sozinhos. Então perguntei: “aquilo que vocês tomaram/comeram no café da manhã chegou na casa de vocês de que forma?” Novamente, aquela pergunta não fazia sentido: seria uma crítica ao capitalismo? Seria um alerta em relação ao que andavam comendo? Seria uma preocupação com o tempo que estavam destinando aos estudos? Então fui esclarecendo: “independentemente do que vocês tenham comido, do que vocês tenham vestido, os alimentos, as roupas, não chegaram na casa de vocês sem que alguém os colocassem lá”. Certo? Obviamente, todos concordaram. E então, alguns começaram a narrar o que suas mães faziam: alguns destacaram que suas mães, além de prover toda a organização da casa, ficavam preocupadas com o devido desamasso das roupas de seus filhos, pois, afinal, o que pensariam delas se vissem seus filhos com roupas amassadas? Depois de outros comentários semelhantes, quase todos enaltecendo o trabalho de suas mães, um estudante, encantadoramente espontâneo, disse: “se minha mãe fizer greve lá em casa, é a revolução”. Sorri profundamente e concluí que, ao menos naquele momento, havia sido compreendida a importância do trabalho doméstico. Então pude expor as ideias do texto de Okin.

“Se minha mãe fizer greve lá em casa, é a revolução”. Como um trabalho tão árduo, contínuo e imprescindível pode se tornar invisível dessa forma, a ponto de parecer mágica? Muitos agem como se o trabalho doméstico fosse algo sem autoria e cuja responsabilidade é cobrada apenas quando ele deixa de ser realizado. As atividades de quem o realiza pertencem a um conjunto de “serviços” que fazem parte do próprio decorrer da vida.

Tal trabalho é predominantemente realizado por mulheres, muitas das quais ainda assumem, saindo ou permanecendo no ambiente doméstico, algum outro trabalho remunerado. O número de horas destinados a esse trabalho feito em casa é desconsiderado na jornada de trabalho e, se realizado de maneira remunerada, recebe as mais baixas remunerações.

Apesar de as mulheres serem as principais – quase exclusivas – responsáveis por este trabalho – ou talvez por causa dele -, elas também ganham menos que seus colegas homens e ocupam um menor número de cargos de chefia ou de representação do que o de cargos ocupados por eles, em todo o mundo.

Além de tal desigualdade, as mulheres sofrem violência sexual, na forma de assédio ou de agressões físicas, e doméstica, mais do que os homens. Seus corpos são objetificados, servindo para a beleza, atendendo desejos, ou sendo vistos como meros recipientes de fetos. Mulheres negras têm seus corpos ainda mais objetificados e vistos como instrumentos de produção e gozo; sofrem ainda mais por seus filhos e filhas correrem maior risco de serem violentados e assassinados do que crianças brancas; sofrem também por saberem que seus filhos provavelmente terão um universo de escolhas menor do que o de seus e suas colegas brancas. Mulheres transgênero são agredidas e violentadas na rua. Prostitutas são estigmatizadas, para além da precariedade do seu trabalho.

De acordo com o relatório anual a respeito da desigualdade entre homens e mulheres do Fórum Econômico Mundial (Global Gender Gap Report) de 2016[ii], o índice de desigualdade global – que varia de 0 (zero) a 1 (um), sendo 0 a total desigualdade e 1 a total igualdade – é de 0,68 (68%). Desse índice fazem parte as seguintes dimensões, com as respectivas desigualdades: (i) Participação Econômica e Oportunidade – 59%; (ii) Obtenção de Educação – 95%; (iii) Saúde e Sobrevivência – 96%; (iv) Participação Política – 23%. Enquanto na dimensão de educação muitos países alcançaram a igualdade e o mesmo aconteceu em alguns países, nos indicadores de saúde, em relação à participação política e à igualdade de oportunidades no mundo do trabalho, não há país em que a igualdade entre homens e mulheres tenha sido alcançada.

Por todos esses fatos, mulheres de vários países do mundo decidiram que, no próximo 8 de março, data designada como “dia internacional da mulher”, teremos um dia de greve de mulheres.

A sugestão para este movimento partiu de diversas fontes de inspiração: o dia sem imigrantes, nos EUA, ocorrido em 2006, com a participação de mais de 50 cidades[iii]; o sucesso da marcha das mulheres em reação à posse de Trump, em 21 de janeiro deste ano[iv], que ocorreu em várias cidades estadunidenses e de outros países; a manifestação mobilizada inicialmente pelo movimento argentino “Ni uma menos”[v], que em 3 de junho encheu as ruas de Buenos Aires para protestar contra os feminicídios no país e, posteriormente, foi o mote para diversas manifestações em toda a América Latina; o movimento de mulheres tecelãs russas, no 8 de março que antecedeu a revolução de 1917[vi] (Lima, 2017). Intelectuais americanas, como Angela Davis e Nancy Fraser – as duas mais conhecidas no Brasil -, assinaram a convocação inicial, nos Estados Unidos. Mais de 40 países deram notícias de estar organizando manifestações para o próximo dia 8 de março.

No Brasil, a greve tem como motivação, além de todas as razões internacionais para a paralisação, ser contra a reforma de previdência e a reforma trabalhistas, cujos efeitos nocivos para todos os trabalhadores serão ainda mais intensos para as trabalhadoras, que já acumulam a responsabilidade pelo trabalho doméstico.

Quanto mais mulheres juntas, menos custos terão as que pararem. Quem não puder deixar de trabalhar durante um dia, pode participar, com outras mulheres, da hora M ou da manifestação organizada em várias cidades do país.

8 de março, não nos levem flores, nós, mulheres, vamos parar!

 

Veja aqui:

Convocação para a greve no Brasil:

A Greve Internacional de Mulheres, puxada por ativistas de mais de 40 países, propõe um dia sem mulheres no 8 de março. Estamos cientes, entretanto, que, no atual contexto de crise do Brasil, muitas mulheres possuem trabalhos precarizados, estão vulneráveis e não poderão paralisar suas atividades produtivas no 8M.

Existem muitas formas alternativas de aderir à Greve Internacional de Mulheres | Brasil:

– Vista uma peça de roupa ou adereço de cor lilás como símbolo de participação no movimento;

– coloque uma bandeira da mesma cor na sua janela;

– pare por um dia as tarefas domésticas como: cozinhar, limpar, cuidar;

– interrompa as atividades laborais durante toda uma jornada;

– caso não consiga, pare no seu trabalho durante a hora M, que será definida localmente; algumas cidades brasileiras adotarão o intervalo de 12:30 a 13:30;

– durante a hora M, reúna-se com suas colegas de trabalho para conversar sobre a desigualdade que afeta todas as mulheres;

– saia às ruas para protestar junto a outras mulheres no horário definido localmente.

Uma das mais importantes é parar por um dia os trabalhos domésticos justamente para torná-los visíveis e demonstrar que essas tarefas devem ser valorizadas, sobretudo pelo governo que, ao propor na Reforma da Previdência igualar o tempo de contribuição entre homens e mulheres, ignora solenemente que a grande maioria de nós cumpre jornadas duplas de trabalho diariamente.

Parar por um dia as atividades de cuidado é uma forma de ressignificar o conceito de greve, que ao longo da história esteve vinculado somente ao trabalho produtivo. Queremos visibilizar também o trabalho reprodutivo e não-remunerado que nós mulheres desempenhamos.

“Se nossas vidas não importam, que produzam sem nós”


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